terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Verdade e cultura


A ciência trabalha com a verdade, assim como a mística e a arte. Cada uma desses ramos surgiu de uma mesma ação humana original e pode ser concebida como uma ação cultural. Cada uma dessas ações explora de certa forma a sinceridade, a credibilidade e a fé humanas e as diferentes comunhões por elas geradas. Em ciência temos o sentido da verdade sendo definido pela construção racional de representações com equivalências formais mais próximas possíveis entre as formas e fluxos nos modelos da realidade teorizada e as formas e fluxos de fato observadas no mundo. A manutenção e transformação da verdade estabelecida dependem de vitórias e derrotas na comunidade que, historicamente, discute e critica os meios e resultados construídos nesses modelos paradigmáticos (Kuhn, 1978). Tais verdades também são determinadas provisoriamente e pelo exame rigoroso das estruturas lógicas produzidas e pelo confronto racional entre experiência concreta e elaboração abstrata. A verdade tende a ser tratada como um conhecimento objetivo especial: um conhecimento tido como cientificamente verdadeiro (Popper, 1975). A sinceridade e a honestidade na verdade científica são tratados como quesitos fundamentais e verificados continuamente em sua consistência, mas é mesmo a eficiência com que as propostas científicas desenvolvem suas interações entre os humanos o que determina a credibilidade de uma ação em ciência.

A verdade na religião, ou mística, acontece mediante a busca e vivência do fenômeno da fé. Não só a experimentação de estados especiais de consciência e conexão com o mundo, mas também profundas e racionais reflexões e decisões ontológicas marcam os fenômenos da sinceridade, credibilidade e fé religiosas. A verdade em religião está especialmente presa e registrada nas pessoas, mas também pode ser verificada abstratamente nas diferentes mitologias e imaginários místicos. A prática sincera dos rituais estabelecidos e o efeito gerado por tai honestidade definem a qualidade da ação, mas também o comportamento individual pode adotar ações desvinculadas de tradições religiosas, podendo estar repletos de sentido místico. Trata-se da última fronteira em que o humano decide sua existência. Crer ou não crer numa perspectiva religiosa, seja ela divina, transcendente, imanente ou outra, determina a constituição dos sujeitos. A verdade na mística é determinada pela adequação eficiente do comportamento às orientações tradicionais, mas também se efetiva na experimentação de

A vivência e reflexão sobre as formas e fluxos que produzem e são produzidas na comunhão religiosa constituída pela interação de fé, sinceridade e credibilidade. O grau de fé numa experiência aqui é determinado por diversos fatores involuntários, mas pode ser incrementado voluntariamente através de uma aposta e de um dar crédito: alguém pode acreditar e agir segundo as orientações religiosas e com o tempo, mesmo estando inicialmente ausentes a fé religiosa, passar a viver esse estado de profundo sentido na existência. A religião é uma religação, que reconecta o humano ao paraíso do qual foi retirado, um estado em que, na animalidade, experimentava uma total integração com o meio, não separando instâncias dentro de si, apenas distinguindo eu e o resto. Pela vivência religiosa, é possível experimentar esses estados de profunda identificação com o mundo externo e agir integralmente numa interação de instâncias, muitas vezes vividas de forma fragmentada. Um constante exame de si em sua sinceridade marca o comportamento místico e determina a fé experimentada. A equivalência entre as formas imaginadas e aquelas encontradas no mundo físico são constantemente reformuladas por metáforas que enxergam padrões estratégicos para o pensamento representado. A elaboração da idéia científica do Big Bang ocorreu pelo esforço do padre jesuíta Georges Lemaitre, que apesar da declarada imparcialidade, teve sua verdade científica adequada aos princípios bíblicos da criação do mundo. Os contemporâneos das religiões de origem africana comumente associam as teorias de origem da vida no coacervado ancestral dos pântanos nas antigas eras geológicas às lendas de Nanã, a Orixá antiga dos pântanos onde surgiu a vida. O grau de verdade de um conhecimento místico depende do seu poder de conferir sentido profundo para um subjetivo. Tal sentido não precisa necessariamente ter clareza e distinção na objetivação que cria. É preciso apenas que faça sentido subjetivo. Quanto mais profundo e integralizante for a ação religiosa, mais verdadeira ela será. Por meio da crença na atitude ritualística, é possível chegar à fé e à identificação-religação com o mundo, num estado de profundo sentido de vida.

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