Adotando a postura de quem resolveu conhecer objetivamente para lidar na vida, o humano passa a duvidar das formas e fluxos que vive no mundo psicofísico e experimenta uma graduação do sentimento de verdade que acompanha constantemente sua ação. A ocupação com a sondagem cuidadosa do ambiente na busca de informações para melhor agir no mundo, iniciada pelo ancestral humano em sua animalidade, desenvolveu-se numa constante pré-ocupação abstrata objetivante. Nesse processo, o sujeito animal não mais se constituiu apenas imediatamente no mundo. Ele passa a ser mediado no seu contato com a realidade, já que a constituição de parte de sua subjetividade é um objeto: o eu fica objetivado, como o resto do mundo das abstrações objetivadas. Ocorrida essa primeira nomeação, surge a realidade objetiva, que nomeia os fenômenos do mundo, as coisas reais, que antes eram apenas concretas e agora são imateriais também. O humano agora não tem só as formas e fluxos do mundo físico-químico-biológico e suas respectivas informações (sempre antes substanciadas materialmente por sinais físico-químicos: neurotransmissores e feromonas específicos, genes, etc) para compor sua realidade subjetiva. As formas e fluxos, assim como as informações que a biologia, agora cultural, faz delas, passaram a constituir a substância de um terceiro mundo, o mundo objetivo-imaginário que passa a compor também a realidade subjetiva que experimentam os animais culturais no mundo. Nesse momento, o humano passa a viver duplamente separado do mundo. Podemos nos atrever a chamar de conhecimento um conjunto de informações tratadas num sistema? Assim, a subjetividade animal seria determinada e formada na integração contínua de conhecimentos físico-químico-biológicos.
Na sequência histórica, o animal que passa a ser cultural terá também outro tipo de conhecimento determinando sua subjetividade: as substâncias imateriais com suas formas e fluxos determinando suas interações entre si para além desse mundo abstrato, num retorno rumo ao mundo físico. Trata-se da ação psicofísica, um movimento inverso da força de origem física e que repercute historicamente através nos níveis de conhecimento (físico, químico, físico) até explodir na ação biológica cultural. Tratar-se-ia de pensar os diferentes níveis de ação das forças naturais como uma complexificação do conhecimento físico. Sabedoria que estruturaria o universo e constituir-se-ia como conhecimento impessoal, independente de sujeitos que a conheçam. Uma espécie de força e ação imaterial, com origem nas formações e informações das substâncias imateriais que agora constituem o sujeito, passa a determinar também os rumos da formação/preparação e criação de sujeitos. Estes estão desintegrados psicofisicamente numa percepção fragmentada do corpo e da mente, que antes vivendo por pensamento direto nas informações do mundo físico, passaram a lidar também com a informação imaterializada pela abstração objetivada. Tais formações são, na verdade, informações-objeto, construtos imateriais que tem forma, força e interação tanto com outras formas, quanto com coisas materiais, como o corpo e outras tintas. Essas formas e forças, semelhantemente ao que ocorre no mundo físico, químico e biológico, vivem individualizadas e interativas como descritas na idéia de memes, seres da cultura ou habitantes do mundo 3, de Popper (WAIZBORT) . Tais imatérias de formação e função específica comportam-se como seres de existência e ação autônomas e que podem se replicar e interferir em processos psíquicos ou psicofísicos. A realidade do mundo objetivo acaba por interferir e transformar o mundo físico, retornando como formação e concretização de fluxos de ações químicas, biológicas e físicas. O deslocamento de parte do sujeito humana para os domínios do universo imaterial e imaginário faz com que sua vivência do mundo físico e de sua própria subjetividade passe a ser mediada pelos objetos. Eles tem a capacidade de criar identificações e registrar as formas e fluxos do mundo através de uma constante informatização dessas específicas formas e fluxos. No contato com uma presença física iremos lidar, quase sempre, antes com a informação objetivada: “Ah! É uma cadeira” do que com a fisicalidade em si. Algo que apareça objetivado pela palavra “cadeira” exercerá presença imaterial para o sujeito, que vê primeiro o nome e depois a coisa nomeada. Essa situação exemplar da cisão psicofísica passa a determinar, constituir e acionar um sujeito dificultado em uma experiência de olhar virgem para o mundo. A subjetividade do bicho humano, antes constituída pela fisiologia informatizada em sua biologia passa a ser determinada também pelos objetos com os quais entra em contato. Surge um abismo psicofísico que separa a mente-imaterial-abstrata da mente-material-corporal. A físicalidade da neurologia do sujeito passa a ser acompanhada de uma afetação constante e potente do mundo imaginário. Após a primeira objetivação, aquele em que o sujeito animal dá nome para a primeira coisa, se instala uma duplicidade na subjetividade humana. Existirá coisa em si, materializada em sua física, química, biologia e ou cultura, e o nome da coisa, que existe imaterialmente como objeto. Experimentar a solidez, mecânica e desequilíbrio de um construído de madeira pode ser mais difícil se você só conseguir perceber uma cadeira. Ter sua constituição feita por dois tipos de substâncias e ter suas potências de interação mútua acontecendo em fluxos multilaterais entre o pó material e pó imaterial do corpomente: eis o desafio do performer humano que precisa presentar-se integrado em todas as suas instâncias de ser animal cultural. A cisão psicofísica é a introdução de um novo tipo de conhecimento na constituição do sujeito humano: o objetivo, eis a especificidade do fruto proibido. A escolha de colher e comer da árvore desse tipo conhecimento marcou nossa história definitivamente. A conseqüências da derradeira maça é uma desligação da natureza: ocorre um DESenvolvimento do sujeito. A religião, digo, a tentativa de religação que surge é uma comportamento que integra misticismo, arte e ciência numa mesma ação. A história humana seguiu separando esses conhecimentos e hoje busca reintegrá-los numa dimensão holística que compreenda e melhor acione o mundo.
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