quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Memes como instruções para a vida cultural


Os memes (BLACKMORE, 1999); (DAWKINS, 1989) são uma proposta para compreender os processos de informatização que permitem com que certos objetos na natureza, no caso indivíduos vivos e idéias, possam alterar suas próprias formações e produzirem mais seres como eles nos mundos físico e imaginário. O mesmo não acontece com os rios e as estrelas. As formações que as mantém sendo o que são não são manipuladas por eles mesmos tal como pode fazer a matéria viva e a imatéria objetivada. Os saltos para a biologia e depois para a cultura e o fenômeno digital foram complexificações não só das formas físicas anteriores, mas especialmente, tratamentos cada vez mais eficientes da informação. A memética funciona explicando as equivalências de funcionamento desses seres informáticos (vivos, objetivos e digitais). Assim ampliada, psicofísica resultante dessa abordagem vai aproveitar diferentes aportes disciplinares e buscar compreender melhor o trânsito e interações entre esses territórios e fronteiras de conhecimento.

Como humanos somos sujeitos desintegrados, partidos na nossa relação de sermos nós e o mundo. Essa partição tem origem na alteridade animal, que define o que sou eu e o que é resto do mundo, formando uma identidade que podemos chamar de sujeito. O Gaspar (um gato branco) é um sujeito bacana, mimado e companheiro. Digo que é um sujeito porque aparece assim para outros sujeitos, fazendo todo o comportamento de alguém que age, quer, dialoga, se lembra, pensa, reconhece, aceita, consegue e se adapta, sempre agindo e reagindo aos diferentes estímulos da sua vida animal, que é corporal e, portanto física. Digo que existe um sujeito Gaspar, que aprende comigo e existe pra mim como qualquer outra pessoa: um irmão, colega ou desconhecido. A subjetividade animal, mesmo configurada assim, ainda é uma subjetividade primariamente material, ou seja, constituída dentro da complexidade dos reflexos e associações físico-corpóreos que constituem o ser Gaspar e não a Catarina, sua irmã-esposa.

Diferentemente deles, nossa subjetividade humana não é constituída apenas pelas substâncias materiais de nossos corpos e neurônios em suas fisiologias: somos feitos de cultura. Nossa subjetividade, diferentemente daquela que existe em outros animais, é um amálgama, uma mistura de dois tipos de substância: as materiais (as realidades físico-corpóreas, tal qual um primata superior de cérebro desenvolvido) e as imateriais: toda sorte de objetivação do pensamento, ou seja, toda forma de linguagem objetivada conscientemente ou não. Desde o início da formação do sujeito que somos o ambiente nos bombardeia com todo tipo de construção imaterial: marcas, comportamentos padronizados, musiquinhas, histórias, arquétipos, imagens, quadros, lendas, personagens e todo tipo de formação de idéia e abstração mais clara e distinta. Essas imaterialidades configuram-se como substâncias capazes de constituir parte de nossa pessoa que, bolo que é, tem pós e líquidos físicos, corporais, tal como nos outros bichos, mas tem também nessa mistura, que é o sujeito humano, pós e líquidos imateriais: os construtos mentais trazidos nas tradições das culturas humanas e aqueles que fazemos sozinhos, pra entendermos o mundo nomeando as coisas nós mesmos. O processo que cria o sujeito Gaspar e aquele que cria o meu sujeito são distintos exatamente nisso: numa interferência da minha linguagem objetivada na constituição animal-corporal que me faz sujeito e que, sem isso, seria meramente física. Outros componentes são adicionados que não apenas os físico-corpóreos: sujeito animal não cultural, antes então limitado em sua formação subjetiva aos fatores da fisicalidade e materialidade de funções biológicas. Quando surge a objetivação (que é a capacidade de identificar e nomear abstratamente algo no mundo para si e para o outro) surge ao mesmo tempo a cultura, que é uma objetivação compartilhada, aquilo que nos conecta: numa imaterialidade que FAZ SENTIDO. Digo cadeira, mamadeira, torturador e calçada e apresento construções imateriais que nos afetam no dia a dia e durante toda nossa formação, fazendo parte (como linguagem) de nós. Na construção de nossa identidade temos uma situação bem diferente da que acontece com a do Gaspar. A dele é imediata, respondendo apenas aos humores de sua corporeidade. Afetividade, emocionalidade, alegria, tristeza, medo e sensibilidade são todas experiências que compartilhamos com outros animais. No caso humano essas situações são quase sempre mediadas por linguagem e portanto, “poluindo” com algo não físico (as idéias em linguagem objetivada) a “pureza” de sua materialidade corporal. Todo tipo de imaterialidade que faz sentido: uma noção, um conceito ou preconceito, uma experiência vivida, etc, são todas formas constituídas não fisicamente, mas apenas abstratamente e fixadas pela linguagem. Essas formas objetivadas costumam representar para nós o mundo e facilitam a nossa vida, encurtando nossos caminhos práticos e evitando que sempre tenhamos que travar especial embate para conceber o que é aquilo que vejo adiante: ah! Uma cadeira! O ser humano comum em sua dia a dia pode estar lidando muito mais com os nomes das coisas do que com as coisas, propriamente. Pode ser grave se um indivíduo em sua subjetividade acreditar mais nas coisas imateriais que povoam seu mundo interior do que naquelas que podem dizer a materialidade de seu corpo.

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