sábado, 5 de dezembro de 2009

Verdade em arte


Para agradar na cena ciência ou na cena teatral é preciso, se não seguir as regras, pelo menos produzir material suficientemente convincente para tratamento dentro da área, que é sempre política e gnosiológica. Não adianta saber, é preciso compartilhar a sabedoria fazendo repercussão psicofísica no leitor de modo que haja a comunhão proposta, isso na ciência, na arte e na vivência mística também. O valor de verdade na ação de um sujeito será sempre avaliado na credibilidade e interesse que ela presenta para os outros. A verdade será reconhecida na medida em que o conhecimento epistêmico, estético ou místico por ela presentado consegue ser comungado entre as pessoas. Tal situação caracteriza a gradua a verdade reconhecida, sendo que na ciência o parâmetro estará sempre na eficiência com que os fenômeno tratados são objetivados clara e distintamente e pela eficiência com que esses construtos abstratos tem de fazer sentido científico entre as diferentes pessoas. A verdade na ciência será sempre mediada pelo objeto, ao passo que na religião, a verdade poderá ser experimentada apenas num plano subjetivo. O mesmo acontece em arte, mas assim como na religião, o discurso, o desempenho e a produção artística é determinada pela interferência e ação de abstrações objetivadas. Todos esses três comportamentos humanos são culturais e acontecem em meio às conexões e relações entre os mundos imateriais e materiais dos psicorpos que interagem.
Apesar de mediação pela objetivação das formas e fluxos do mundo psicofísico, a arte e a religião podem proporcionar vivências nas quais o sujeito experimenta interação direta e imediata numa, pelo menos aparente, conexão integral com o mundo. A identificação acontece de forma plena e religa o sujeito ao mundo concreto e imanente. Tal processo de libertação da objetividade do pensamento pode ser encadeado em meio à gradativa limpeza dessa “poluição”: os construtos imateriais habitantes e atuantes do mundo imaginário. No trabalho de ator existe ganho na performance na medida em que esse artista consegue criar formas cênicas equivalentes às informações concebidas e que povoam e quase sempre bloqueiam sua criatividade. Evitando cada vez mais a superpopulação de idéias e efetivando a presentação de formas cênicas estratégicas, o ator caminha na sua criação a partir do texto dramático. Uma fala é uma objetivação e assim como uma indicação objetiva da direção: “Agora você precisa parar de correr antes desse limite ou a câmera não o pegará”. Enquanto essas informações pairarem sobre a cabeça do ator e não forem utilizadas para produção de ações atorais equivalentes e coerentes, teremos apenas uma atuação mecânica na qual as ações do ator são “dizer o texto e parar quando o diretor mandou”. Para criar de forma eficiente o ator deve saber lidar com esse processo de imaterialização ou informatização das formas do mundo através da objetivação, construindo assim, as informações, os construtos mentais que poderão passar a agir em sua subjetividade. Deve também dominar ao máximo os processos de entranhamento, nos quais serão criadas formas cênicas eficientes em seu psicorpo e que estarão em sintonia e equivalência racional com as informações dadas pelo texto e pela direção. Tais movimentos, do mundo material para o imaterial e vice-versa pode ser avaliado pelo grau de verdade com que um ator consegue produzir a ação cênica dessa forma, estruturada segundo indicações objetivas.
Evidentemente haverá sempre uma maior parte de formação psicorpórea na cena que não tem origem nas informações das circunstâncias ficcionais e encenacionais dadas. A vida presencialmente psicórpica de uma ação cênica não cabe numa frase que a informa. É preciso manipular nervos e músculos numa criação sempre original. Porém, no teatro que trabalho com texto dramático e na direção que precisa especificar objetiva e precisamente ações em seus movimentos, é preciso que a criação ocorra orientada para formações específicas. Tal processo é feito eficientemente na medida em que o ator consegue identificar-se integralmente nas ações ficcionais e cênicas que age em cena. Tal efeito pode ser acessado voluntariamente através da produção sincera das ações. A verdade experimentada pelo ator e pelo expectador poderá não dependerá de informações transmitidas na cena, mas da fisicalização de formas especificamente orientadas por objetivações. O mesmo acontece na religião, que orienta os rituais e na colheita dos frutos científicas da oferta tecnológica. Conceitos antes existentes apenas na imaterialidade da idéia de um projetista chegam ao consumidor materializados em formas e fluxos equivalentes ao imaginado. O mesmo ocorre na arte, mas a verdade das objetividades e subjetividades produzidas será avaliada para além de sua correspondência com o mundo real. A ciência só tem morada no mundo objetivo se tiver seus objetos ancorados em realidades investigadas no mundo natural. Caso contrário, as idéias permanecem sem grau de verdade. A verdade na arte pode apoiar-se numa correspondência entre seus objetos e fatos observados no mundo, mas não precisa dessa equivalência tão rigorosamente demonstrada como representação aproximada do real.
A verdade em arte tem efeito no mundo objetivo ao explorar a potência da imaginação, enquanto que a ciência quando também trabalha nesse campo só pode apoiar-se na noção de verdade quando estabilizar os objetos coerentemente com os fatos concretos do mundo. A teoria científica deve ser elaborada já considerando a possibilidade da verificação de sua verdade em confrontos experimentais com o mundo natural. Os conceitos em arte tem ação mais livre e podem ter sua verdade aproveitada nos domínios do imaginário. Não importa se vampiros existem no mundo real. Uma cena ficcional não precisa levar isso em conta. Mesmo assim, a noção de verdade e a credibilidade será abalada se, na cena, a casa do Drácula for uma sacristia. O conhecimento em arte pode ser apoiado no poder e interação dos construtos abstrato-objetivados, mesmo que eles não encontrem representação efetiva no mundo real. Unicórnios e entidades imaginárias podem ser mais úteis para o ator que qualquer equação, procedimento codificado, teoria ou técnica que indique as verdades científicas do trabalho de ator. É preciso, portanto, questionar a gnosiologia na pesquisa em artes, percebendo que a orientação vigente é de natureza epistêmica, já que a metodologia adotada e cobrada é exatamente a científica.

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