Um teatro da ação sincera demanda a compreensão dos fenômenos de interação entre os mundos do imaginário, da subjetividade e da fisicalidade. O ator psicorporifica informações objetivas o tempo todo. “Ser ou não ser, eis a questão”. Essas são as palavras. A informação objetiva com a qual lida o ator é clara e distinta, como bem quis Descartes. Esse é o imaterial que precisa ser corporificado, não numa encarnação transcendental entre os mundos. De um lado temos conhecimento objetivo, aquele gerado na objetivação: o movimento de informatização imaterial que cria construtos abstrato-objetivados no mundo do imaginário. Do outro temos a subjetivação, o processo de informatização material neurofisiológicogenetico que cria sujeitos construindo conhecimentos subjetivos, que no caso humano, são formas e fluxos feitos de dois tipos de substâncias: as imatérias abstratas e as matérias concretas do psicorpo. Nem um processo, nem outro acontece por transubstanciação, ou seja, não acontece na informatização objetivadora, nem na subjetivadora uma transformação de informações materiais em informações imateriais. Os dois processos acontecem por meio da produção orientada por equivalências ideais entre as formas e as informações que as representam. Os fluxos das formas concretas do mundo, também são igualmente representados nas sistematizações que estruturam as informações imaterializadas nos construtos abstrato-objetivados. A parte objetivada do sujeito experimenta a ocupação desses diferentes espaços ao mesmo tempo, estando sempre ocupando os três, mesmo que às vezes mais ou menos presente em um mais que nos outros. O domínio de cada instância da pessoa pode ser revezado entre sua subjetividade objetivada, os instintos e intuições, sua percepção consciente e sua profundeza inconsciente, cada uma exercendo decisões para o resto da pessoa e determinando a história de nossas ações. A vivência integral e saudável entre essas diferentes partes do sujeito humano é fato de raro equilíbrio.
A integração entre indivíduo e as informações no mundo humano acontece não apenas de modo direto, como fazia quando animal não cultural. Seu sistema biológico está igualmente estruturado para continuar agindo no registro e manipulação de informações construídas fisicamente para cada vez melhor agir no mundo, fazendo isso representando através de informatizações materiais das específicas formações físicas, químicas e biológicas. O gato não duvida da percepção objetiva que tem do mundo, simplesmente porque não a tem. Sua lida com as informações vem de dados físicos, químicos e biológicos, não culturais. A capacidade de fazer isso, ou seja, uma nomeação que representa as coisas do mundo é exatamente o processo de objetivação. Por poder o humano compartilhar, ao menos com seus semelhantes essa nova substância, que é ativa pelo menos no mundo humano, acontece a possibilidade da cultura: surge o mundo do imaginário e vai ter nova casa o animal humano, que passa a habitar num terceiro mundo.
Quando animal não cultural, conhecia e construía conhecimento que se substanciava num sentido de mundo subjetivo em que seu corpo é separado de um resto que o hostiliza. A auto-preservação é apenas uma das manifestações do movimento das forças biológicas com que age um ser vivo. A individualização em unidades vivas, querentes e agentes é a ponta de uma complexificação do mundo físico que se inicia na ponte de estabilidade e condições que permitiram o surgimento de fenômenos químicos em um universo antes apenas tomados por fenômenos físicos. A continuação da estabilidade e especificidade de determinadas formações químicas ocasiona o salto para a existência de fenômenos biológicos. A sequência de complexificação do mundo biológico acontece na produção de fenômenos culturais e que depende de toda essa cadeia histórica para se configurar e constituir. Ocorre que nessa altura do processo de complexificação das forças físicas, os fluxos e as formas passam a ser determinados também pelas particularidades de cada estágio (químico, biológico, cultural, haveria depois?).
No nível biológico em que chegam vivas pelo sistema de alta complexidade química, as forças físicas da natureza encontram uma situação inédita: o tratamento da informação. Tal nova condição inicia-se no surgimento de mecanismos que constroem formações no mundo (genes) para representar outras formas e seus fluxos físicos, químicos ou biológicos. Nesse nível genotípico, o ser vivo encontra-se representado nas formas químicas que o constituem biologicamente. No nível fenotípico, o animal adulto também explora informações físicobioquímicas para melhor interagir no mundo. As formações são observadas nas diferentes situações naturais e encontram equivalências formais nas representações que dela se criam, servindo para modelos que registram em informações as formas e fluxos de maior sucesso. As dinâmicas das forças físicas são agora psicofísicas, no caso humano.
O físico de seu corpo acontece em interação com o resto do concreto da realidade, mas também é movido e acionado por forças imateriais: o poder das substâncias imateriais e sua interferência e transformação dos mundos físico e subjetivo. A existência formal e fluente no mundo físico passa a sofrer novo tipo de interferência por conta da produção de outro tipo de conhecimento. Aquele que quando químico pôde transformava o mundo físico e depois quando o conhecimento biológico passou a transformar o mundo químico, para finalmente, o conhecimento e conseqüente ação objetivada passou a exercer transformação nos conhecimento físico que constitui a base da natureza, entendida aqui como uma sequência histórica de conhecimentos que acontecem através da ação da força física e suas diferentes formas e fluxos. Nessa perspectiva, a equivalência da imaterialidade e da materialidade entre os mundo abstrato-imaginário e o mundo físico, no caso humano encontra dois níveis de conhecimento subjetivo para investigar: o mundo biológico que constitui o humano e o mundo químico que o fundamenta fisicamente. Aquilo que difere o humano por possibilitar a cultura também o escraviza, tornando-o duplamente sujeito e precisando de parâmetros para dizer da verdade dos diferentes conhecimentos que constituem os mundos que ele é.
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