A idéia de alteridade mediada: o ator em sua humanidade precisa identificar-se com o texto que diz, já que as ações agidas só serão integralmente presentadas se de fato forem agidas tal como na vida: de modo integrado, acionado em todos os seus aspectos volitivos e afetivos. Isso tudo feito de modo sincero, disponível na intimidade de uma confissão ao público: assim fala inteiro o ator (ou pode falar nesse meu conceito de ator total) em cena. Agindo sinceramente quando estiver ficcionalmente, "reinando", "matando", "perseguindo", etc.O ator não finge que faz essas coisas. Sua arte consiste em criar modos cênico-atorais (recursos teatrais) para conseguir convencer todo o ser do ator(humano que é) a fazer essas coisas que não são nossas, mas dos personagens (que tem vida própria e interação junto com outros entes e seus elementos (memes), construtos mentais e todo tipo de abstração objetivada.
O ator (em sua voluntariedade) deve convencer o resto de si (daquilo que não tem controle, por exemplo dos musculos involuntários do seu rosto que são essenciais num sorriso verdadeiro). Eu quero um ator que sorri de verdade e não que finge fazer isso. O mesmo com o choro, a ira e o desprezo. Quero meus atores vivendo não esses personagens, mas essas ações, que em sequencia, vão dar a ilusão, mais ou menos crível, de uma vida outra, ALTERada de mim, como ator que devo aprender a agir daquele jeito.
Pra quê essa doideira? Esquizofrenia?
Questões éticas...
Para a psicofísica de atuação da tradição stanislavskiana e grotowskiana, o envolvimento do ator e a sua integração consigo mesmo e com o papel são condições fundamentais para encaminhar uma efetiva “encarnação do papel”. Porém, diferentemente do que pode pensar o senso comum, a identificação do ator não precisa acontecer com o personagem, mas com todas as ações que executa. Tanto no cinema quanto no teatro, o trabalho de ator pode acontecer de forma segmentada, concentrando atenções de forma isolada em ações específicas, que serão montadas em seqüência. Assim, criam a ilusão de um personagem. A qualidade do produto final é dependente tanto do desempenho do montador em sua sequenciação, quanto do autor, na sua competência de enredamento dos acontecimentos e do ator, que deverá ser integral em todas as ações que atuou, permanecendo identificado com as propostas de cada ação.
O que o ator aciona para o desenvolvimento de um papel e para a realização de uma cena é exatamente aquilo que ele tem de matéria prima para sua arte: a sua própria humanidade, em toda a sua fisicidade corporal e imaterialidade psíquica. A ação no palco é mesmo física porque é dependente da corporeidade do ator para acontecer. Se este performer não agir conforme acontece na vida humana, poderemos observar uma atuação mecânica, forçada, artificial e não atraente, portanto.
A forma como um ator se identifica com o material (seu corpo) e com o imaterial (a ação ficcional a ser encenada) é uma situação concreta, e esse acontecimento é mostrado em cena, assim, pelas ações físicas do ator (corpo e voz humanos vivos e inteiros). É nesse sentido que investiga o trabalho de ator em seus aspectos acionais que podemos destacar os processos de INTENCIONALIDADE nas diferentes performances do ator (na criação, na fixação e na presentação). Considerando esse aspecto intimamente relacionado aos fatores volitivos das ações físicas e seus conteúdos interiores. As vontades de dizer de cada ator serão necessariamente aquelas com maior capacidade de serem ditas com vontade pelo performer em cena. Isso fica claro se consideramos que depende da identificação com a mensagem a qualidade da comunicação do ator.
Por isso, existe um processo pessoal do ator pra essa identificação, no qual são combinados e compostos os elementos imateriais e materiais externos com os elementos pessoais de cada artista da cena. Evidentemente, para o ator humano, a atuação estará sempre impregnada e suportada pelo que de fato há de corporal e psíquico na pessoa do ator. Toda personagem feita por um determinado ator vai ter não só a sua "cara", mas também a sua voz e corpo, mesmo que alterados. Podemos pensar na universalidade do ator em seu processo, já que mesmo considerando a individualidade e particularidade como fatores fundamentais nesse processo, teremos sempre “princípios que retornam”, como diz Barba, e recorrências que podemos verificar em outros atores com as mesmas situações éticas e sociais.
Sobre intencionalidade
Qual seria um bom conteúdo de fundamentação teórica para intencionalidade?
Vejo intencionalidade no trabalho de ator em dois sentidos: na ação ficcional e na ação teatral. Na ação ficcional, Luiz Otávio Burnier fala de “intenção” como uma qualidade muscular. Veja as fotografias anexas nas quais temos lançadores de dardos. Podemos verificar que existe um estados corporal bem específico no momento da ação humana, que é exatamente um engajamento muscular particular, que é movido pelo esforço e configurado em suas intensidades e configurações segundo as situações determinadas no acontecimento. Essa tensão no músculo pode ser observada na imobilidade, mas está presente em todo a extensão do movimento acional. Sendo assim, “intenção” no caso da ação ficcional, aquela ação alterada, imaginada, que eu devo viver sinceramente em cena, funciona como uma idéia que me permite perceber uma qualidade do movimento acional: ele é intencionado, tem finalidade específica e provoca engajamento particular. No acionamento ficcional, o ator age as ações do personagem e empreende as intenções correspondentes. Para a psicofísica em seu estudo da ação humana e ficcional, a intencionalidade nesse sentido interessa até onde pode ser explorada em seus fatores voluntários (o objetivo de cada ação, por exemplo).
O outro sentido de Intencionalidade no trabalho de ator diz respeito à ação teatral. Que é a primeira instalação do ator. Eugênio Kusnet, importante ator brasileiro de naturalidade russa também foi importante pensador e professor de atores. Ele lembrava que um psicólogo russo (Pavlov?) defendia a idéia de instalação. Para qualquer atividade humana nós nos instalamos como “bombeiro”, com “rei”, como “mãe”, etc. No caso do ator, precisaríamos realizar duas instalações: como “bombeiro”, “rei” ou “mãe” e outra como comunicadores. Essa sobreposição seria a construção do personagem teatral. Como técnica, bastaria realizar uma séria de micro-instalações duplas para criar a ilusão de que o ator vive um papel: a observação de suas ações (suas obras dizem o que ele é).
A intenção do ator é determinante nessa instalação, já que orientará a comunicação a ser realizada por meio da ação teatral. O trabalho em teatro, mesmo num monólogo, é quase sempre coletivo. Estou trabalhando em um em que pelo menos 4 artistas trabalham para compor um discurso coletivo juntamente com a atriz solista. Podemos trabalhar com a crença de que podemos compor um discurso como grupo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário